Resenha: Cidade em Chamas, Garth Risk Hallberg

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Título: Cidade em Chamas (City on Fire)
Autor: Garth Risk Hallberg
Editora: Companhia das Letras (Knopf)
Páginas: 1040 (944)
ISBN: 978-85-359-2704-7 (978-03-853-5377-9)
Lançamento: 2016 (2015)
Gênero: Ficção, Literatura americana
Onde comprar: Livraria Cultura - Saraiva
Links: Skoob (Edição em inglês)
Avaliação: ★★★★

Sinopse: Nova York, 1976. O sonho hippie acabou, e dos escombros surge uma nova cultura urbana, com guitarras desafinadas, coturnos caindo aos pedaços, galerias de arte e casas de show esfumaçadas. Regan e William são herdeiros de uma grande fortuna. Ela, uma legítima Hamilton-Sweeney, vê seu casamento desmoronar em meio às infidelidades do marido. Ele, a ovelha negra, fundador de uma mitológica banda punk e figura lendária das artes de Nova York. Ao redor dos dois gira uma constelação de personagens e acasos- uma jovem fotógrafa, um professor negro e gay, um grupo de ativistas, um garoto careta e asmático e um jornalista que sonha ser o novo nome do jornalismo literário americano. E, em meio a tudo isso, um crime que vai cruzar essas vidas de forma imprevisível e irremediável. Cidade em chamas é um romance inesquecível sobre amor, traição e perdão, sobre arte, rock e o que significa a verdade. Sobre pessoas que precisam umas das outras para sobreviver. E sobre o que faz a vida valer a pena.

Obs: As citações se referem à edição em inglês da editora Knopf.

Em março desse ano a Cia das Letras anunciou o lançamento de Cidade em Chamas, o romance de estreia de Garth Risk Hallberg, escritor americano que atualmente mora em Nova York. Eu comentei a notícia (veja aqui) e assim que foi lançado, no início do mês de maio, já estava com o livro na mão!

O livro, que pode assustar com suas mais de 900 páginas, vale a pena ser lido. Ambientado na cidade de Nova York dos anos 1976-77, época em que a cidade vivia as consequências econômicas e sociais da recessão de 1973 a 1975, que assolou a maior parte dos países ocidentais. A cidade também era palco de novas descobertas musicais, como o punk-rock, e da contra-cultura.

“He was launching himself toward the singer to chant back at him the words
that had once belonged only to Charlie and Sam: ‘City on Fire, city on fire/
One is a gas, two is a match/ and we too are a city on fire”. [p.76]

A cena musical é bastante importante na narrativa de ‘Cidade em Chamas’, já que é o fio condutor de parte dos protagonistas e além disso enriquece a história. O site Mashable perguntou ao autor quais seriam os álbuns que mais o inspiraram ao escrever Cidade em Chamas (artigo completo ‘David Bowie, Patti Smith and 9 more artists who inspired 'City on Fire'’). Temos na lista Patti Smith, Rolling Stones, Billy Joel, David Bowie e outros. Enquanto eu escrevia essa resenha, escutei algumas das músicas e escolhi essas três para trilha sonora, para quem quiser uma experiência mais sensorial:

  

A hisória é narrada em terceira pessoa, com uma lista considerável de personagens cujos pontos-de-vista organizam a narrativa. Acompanhamos William (ovelha negra e herdeiro da empresa da familia, artista e punk-rock), Mercer (professor de literatura, gay e recem chegado a Nova York), Charlie (adolescente nerd do subúrbio), Samantha (fotógrafa e universitária, interessada no mundo do punk), Keith (pai, recém divorciado), Regan (mãe e trabalha na empresa da família), Pulaski (detetive, pressionado para se aposentar), Richard (jornalista literário), da noite de ano novo de 1976 até o blackout de julho de 1977.

A trama toda se desenvolve ao redor de um homicídio no Central Park na noite de ano novo, e o mistério da relação de todos os personagens tanto entre si como com o acontecimento daquela noite é que dá o tom de thriller ao livro.

Ponto positivo do livro é a ambição de desenvolver tantos personagens ao mesmo tempo. O autor não se atém apenas ao período de 6 meses da trama principal, mas também desenvolve a história anterior e posterior (em alguns casos) dos personagens, o que dá uma dimensão completamente diferente a narrativa. Sabemos com mais clareza o que está por trás das decisões tomadas pelos personagens e o quê os moldou para se tornarem os personagens que temos em nossa frente.

Infelizmente essas descrições e dramas se tornam excessivas em alguns momentos, nos quais há apenas a vontade de descobrir o mistério em torno do assassinato. Por outro lado, o autor escreve muito bem e alguns trechos do livro são particularmente muito bonitos, poéticos.

“Summer in New York City, with the clouds above going copper - colored and a Negro
with a trumpet playing for pennies by the subway station, the shimmy of buses echoing
up the fronts of high buildings, as if God were on a person-to-person call, saying,
This is where you belong”.[p.498]

Além dos personagens, recebe também destaque a cidade de Nova York. Com cada personagem se apropriando dos espaços da cidade a sua maneira, as descrições das esquinas, ruas, parques transportam o leitor para a cidade nos fins da década de 1970, com o constante movimento de pessoas, o graffiti, a músicas, as lojas, o transporte.

Bairro do Brooklyn durante o blackout de 1977. (Fonte: New York Times)
Após tanto desenvolvimento dos personagens, e por consequencia o envolvimento do leitor com as páginas criadas por Garth Hallberg, o desfecho da história é desapontante. Esperava por um final surpreendente como as primeiras páginas do livro.

“I keep thinking, while driving, while cooking, while in the office preparing briefs,
about a veiled city, hiding something. And I keep returning to the night of the blackout,
and the question of just what changed there in the dark”. [p.651]

Talvez fosse essa a intenção do autor, de mostrar que realmente nada mudou depois depois do blackout e da recessão; de que a vida é como ela é, e que ela segue. Apesar disso, a leitura é deliciosa, e por isso a recomendo.

Espero que tenham gostado e comentem o que acharam!




27 anos, arquiteta, restauradora e nas horas vagas fotógrafa e masterchef. Bookaholic morando nas terras do Tolkien, Lewis, Rowling, Dahl, Carrol.

2 comentários

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1 de junho de 2016 09:22 delete

Oi, Aline!
Gente, quase um Martin da vida esse cara viu? Esse bando de página assusta.
Amei ver Starman e Psycho Killer ali <3
Beijos
Balaio de Babados

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1 de junho de 2016 09:27 delete

Oi Luiza!
Sim, o livro é enorme, e assim como os do George Martin vale a pena ler!
Todos os álbuns que ele citou são ótimos! Escutando non stop.
Obrigada pela visita!
Beijos

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